Trabalhando em navio cruzeiro

O ano de 2017 foi um ano de muitas mudanças e experiências para mim. Estava em um mochilão prolongado pelo litoral brasileiro e desde que sai de casa em junho de 2015 até 2016 passei na estrada, fazendo voluntariado e também trabalhando por onde passava para conseguir uma grana extra.

Final de 2016, Morro de São Paulo, Bahia. Estava lá eu naquele paraíso, trabalhando de garçom, recepcionista, vendedor de pacotes de passeios, web designer, e de tudo que podia para me manter. Havia alugado uma casa em um bairro mais afastado em cima do morro. Estava aproveitando meus meses de praia, mas a grana estava ficando curta e não estava conseguindo economizar com os bicos que conseguia.

Então lá vou eu procurar trabalho na internet. Aí lembrei que uma amiga havia me falado sobre navios cruzeiros. Eu sabia que era uma vida dura e que o trabalho seria bemmm puxado. O desespero de ficar zerado bateu e me inscrevi.

Resumindo, passei nas entrevistas para trabalhar como HouseKeeping Steward na Costa Crociere. Desde minha inscrição até o embarque foram oito meses. Nesse meio tempo, voltei para casa, fiquei umas semanas com a família e meti o pé na estrada para correr atrás de cursos e exames exigidos pela companhia.

Fui parar em Foz do Iguaçu PR, na casa da minha irmã. Na infinita demora sem saber quando me chamariam, comecei a trabalhar de bartender em um hostel em Foz, onde foi uma experiência muito bacana, pois nunca tinha desempenhado essa função. Mas com a ajuda da dona do hostel que me ensinou tudo com paciência, aprendi e em uma semana já estava fazendo alguns drinks. Ali fiquei por quatro meses, até a companhia liberar a data de embarque.

Chegando no navio, já senti que não seria fácil o trabalho e quase me arrependo e volto para casa. Mas aguentei e a primeiro mês foi a adaptação. Pés começavam a calejar, as mãos começam a endurecer de tanto varrer e passar esfregão, corpo e joelhos doem por falta de descanso.

Meu trabalho era limpar a área da piscina central do navio. Ali começava a correria. Tirar pó das janelas, paredes, pés das mesas, vidros, portas. Varrer o chão, escadas, corredores, decks externos do navio, etc. Passar esfregão no chão, canaletas, decks externos, quadra esportiva, e demais áreas. Usar equipamentos pesados, produtos de limpezas, limpar e limpar e limpar repetidamente todos os dias. Não é fácil a vida no navio.

Um dos fatores que mais dificultaram a minha vida no começo foi o meu capo. Meu primeiro capo era uma pessoa rancorosa e sistemática até demais. Pensa na pessoa perfeccionista, e ninguém era bom o bastante para ele. No começo sofri muito porque ele não tinha uma boa pronúncia do inglês. Falava com sotaque filipino e muito rápido. Isso foi muito difícil para mim pois não entendia o que ele pedia, e sempre que ele mandava fazer algo, tinha que ficar pedindo para repetir ou perguntava aos outros se teriam entendido (que logicamente também não entendiam nada kkkkk). E além de falar rápido, ele exigia perfeição em um tempo impossível. E para quem trabalha em navio, sabe que não existe isso.

Outro fator, foi que eu peguei um sapato no meu número para trabalhar (eles fornecem todas as roupas de trabalho), e foi um erro pois quando você pega um sapato desses eles são pesados, e possuem uma parte metálica na frente, o que faz que com seus dedos fiquem apertados. Isso fez com que na primeira semana eu ficasse com calos nos dedos e comecei a mancar de tanta dor. Só consegui trocar depois de muita insistência com meu capo, dizendo que não conseguia correr (como ele exigia) para executar as tarefas no tempo estipulado por ele. Mas apesar disso, eu sempre dei o meu melhor, e fiz tudo o que ele pedia, e por mais que ele fosse um carrasco, ele até gostava de mim. Por eu me esforçar bastante e mostrar serviço.

Logo depois de um tempo você acostuma ao trabalho, mas seu corpo passa por fases difíceis, de cansaço, dores nos joelhos, pernas, pés, mãos, e também cansaço emocional. Houve vários dias que desejei estar bem longe de lá, e até pedir Sign off (demissão). Mas como tinha um objetivo de terminar o contrato pela experiencia e dinheiro, persisti, orei, chorei, mas aguentei.

Um benefício, é que você pode sair conhecer os lugares onde o navio atraca. Assim você acaba conhecendo vários lugares legais. Apesar de não termos tanto tempo para passear, dá para tomar um ar fresco e arejar as ideias. Eu mesmo conheci 10 países e inúmeras cidades da Europa durante meu contrato de sete meses.

Durante meu contrato, passei por seis capos (responsáveis pelas equipes de trabalho) e 3 diferentes trabalhos. Após minha insistência para mudança do meu trabalho para o turno da noite, consegui mudar depois de um mês e meio. Comecei a trabalhar dentro do Spa, e por duas semanas, trabalhei mais tranquilo em um serviço mais leve. Já estava me acostumando quando alguém da noite estava sendo transferido, e me chamaram para cobrir seu lugar. Assim fui para a noite.

No trabalho noturno, no mesmo setor que estava durante o dia, eu fazia limpeza da área central do navio durante a madrugada, limpava o interior das cinco piscinas, cinco jacuzzis, refilava os produtos químicos nos maquinários das piscinas, limpava o interior dos maquinários, popa do navio, central do navio, decks abertos, e dentro do Spa. Além de fazer algumas tarefas extras. Era tudo isso, todos os dias feito por apenas duas pessoas. Tinha dias que o capo ia passando a lista de tarefas extras do dia, e eu ia falando, não vai dar tempo, e ele vai sim. Sofri muito pois era muita coisa, e não conseguia fazer tudo. Meu horário era das 23 da noite até as 11 da manhã. Tínhamos um intervalo para jantar e mais uma hora para descansar e tomar café às 7 da manhã (era só para o café, porque não sobrava tempo para descansar).

Mas graças à Deus, consegui terminar esse contrato. Foi sofrido, doloroso, desgastante. Não teve um dia sequer que não pensei em desistir. Você trabalha com gente difícil, muitas horas de trabalho, ganha pouco, tempo limitado para sair, pouco tempo para descanso, sem dias de folga. Além que trabalhar na temporada brasileira, tudo piora. Porque o número de brasileiros no navio aumenta, e tem muito brasileiro que não trabalha direito (a maioria dos mamagaios são brasileiros, na minha visão), só quer mamagaiar (ficar matando serviço para descansar) e ficam fazendo saboneta (fazer serviço de má qualidade). Eu sofri muito por isso, porque dependia de ajuda de uma equipe de brasileiros, e não foi fácil. Você tem que realmente levar muita coisa na esportiva, ignorar, ser muito paciente, porque ninguém faz nada a respeito.

Hoje, em casa, depois de um mês do fim do meu contrato, meus dedos dos pés ainda estão amortecidos, e não se recuperaram totalmente. Mas digo que valeu a pena este trabalho. Mesmo depois de tudo isso. Digo que valeu a pena por três motivos:

Um é que se você aguentar trabalhar em um navio, aceitando todas estas condições e se submetendo, vai levar esta experiência para vida toda e você poderá trabalhar em qualquer empresa.

Outro motivo é pelos lugares que conheci. Não há nada melhor que viajar e conhecer novos lugares, países e culturas.

E o último motivo é pelas amizades que ficaram. Fiz muitas amizades, e algumas delas irão durar para vida toda. Às vezes você se sentirá sozinho e pensará em desistir, mas sempre terá alguém para te ajudar e aconselhar. Lá todos se ajudam de alguma forma.

Este é o meu relato sobre como foi minha experiência no navio cruzeiro. Algumas pessoas me perguntam se voltaria a trabalhar lá. Eu digo que não neste cargo, porque no navio existe vários cargos e setores, uns melhores e outros piores do que esse que trabalhei. Talvez eu volte para trabalhar no setor de minha formação. Mas não estou pensando no momento. Mas aprendi a nunca dizer nunca, pois a vida dá voltas, e talvez chegue um momento que precise de dinheiro e cogite a voltar lá, não sei. Então nunca diga nunca!

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